Na Pior — Decadência como Catolicismo

Publicado em 11/05/2026

← Voltar para o início

A Crucificação, Retábulo de Isenheim — Matthias Grünewald, c. 1512-1516
"A Igreja Católica é apenas para os santos e pecadores. Para as pessoas respeitáveis bastará a igreja anglicana."

— Oscar Wilde

No começo do ano, saíram dados do IBGE que mostravam que o crescimento dos grupos evangélicos/protestantes/pentecostais estava desacelerando, o que me causou espanto. Afinal, desde os anos 80 até aqui, houve essa onda que parecia que não pararia. Que é notável com diversas igrejas aparecendo em diversas partes do Brasil, horários em televisões, diversos sucessos de hinos gospel e o que acredito que seja o símbolo máximo, a construção do Templo de Salomão em São Paulo. Naturalmente é de se achar que em poucos anos, desbancaria qualquer outro grupo religioso.

Não é incomum ouvir relatos de ex-fiéis, das mais diversas congregações e grupos, falando de suas experiências, ditas por eles como traumáticas. Claro que além disso, tem a "onda laica", a secularização galopante, onde instituições tradicionais vêm perdendo espaço, o que não é incomum em perder fiéis também. Obviamente tem diversos fatores, assim como o estudo de religiões comparadas deveria ter o de "ateísmo/arreligião" comparada, afinal as causas de alguém que faz parte de uma sociedade cristã é muito diferente do muçulmano ou hindu, por exemplo. Acredito que seja diferente também em diferentes denominações.

Claro que "traumáticas" é termo tanto vago para descrever os "desvios" dos fiéis e ex-fiéis, já que cada causa é diferente e varia para cada pessoa, seja ela pela rigidez da doutrina, pela culpa em não seguir devidamente e assim ir acumulando, além dos fatores de um mau ensinamento ou incompletude teológica, afinal, um mau professor é bastante destrutivo.

No estado atual, você deve ter tido contato com algum grupo, ou ter feito parte dele, e não é incomum a comparação de um lugar como Estados Unidos da América, ou algum outro país europeu que tenha raízes mais profundas na Reforma, com um país de fundação católica, como o Brasil e diversos outros países de origem ibérica, que apesar de pertencerem desse mesmo ramo, ainda sim têm diferenças significativas, mesmo partindo de um princípio de harmonização — como os jesuítas na China, onde Matteo Ricci traduziu símbolos e ritos locais para o catolicismo sem criar uma nova religião, mantendo-se dentro do ramo central católico, não uma derivação. Olhando pela superfície, você tem uma influência bastante considerável dos puritanos, que daí você tira bastante coisa, seja a representação cultural e/ou das doutrinas em diferentes lugares. Mas não nos estenderemos nisso, afinal, é um tópico bastante vasto.

Já que a Reforma, uma boa parcela, seja iconoclasta. A pureza da Palavra, do caminho reto da fé é o suficiente. A Contra-Reforma, católica, parte para outro caminho, o contrário. Pegando as tradições anteriores, principalmente do medievo, se deu um maior apoio ao desenvolvimento das artes sacras e religiosas. O Barroco é principalmente isso. Se o protestantismo com seus altares de suas igrejas sem a figura de Cristo na Cruz, simbolizando a ressurreição e até mesmo a austeridade da doutrina e modo de vida, o Barroco é o oposto, mostra com detalhamentos, sombras e movimento brutal de episódios. Não é incomum encontrar estátuas e pinturas de Cristos com o máximo de sofrimento, da paixão sendo exprimida na tela, nas esculturas, o gráfico, o martírio dos santos e a crucificação bastante detalhadas, que parece que jorra um sangue real. Além das decorações de ouro e ilustrações suntuosas. Afinal, além de ser um contraponto à Reforma, serve como lembrete da doutrina, a ênfase no caminho tortuoso da fé, do vale de lágrimas e da glória do céu em ouro.

Uma coisa que fica clara, ou um pouco, já que o jeito protestante/evangélico tem um foco no caminho reto — afinal, uma parte entende que o batismo, por exemplo, é "renascimento do corpo" e que deve seguir à risca sem muita margem para erros (não que a doutrina do batismo esteja errada, mas tem várias ressalvas em vários grupos). No catolicismo, se entende que o caminho é e será tortuoso, cairá bastantes vezes. O batismo serve como um começo dessa jornada. Para os adultos, não que seja propriamente uma segunda chance, que o passado seja completamente apagado quando emergindo da água, mas que a vida pregressa sirva justamente como exemplo. Os exemplos têm aos montes: Santo Agostinho de Hipona, São Francisco, Santo Inácio de Loyola e etc.

Como se deve notar com esses poucos exemplos, as diferenças doutrinárias entre esses dois grupos. Em um exercício de raciocínio, além das citações, o catolicismo permite contradições e paradoxos dentro da doutrina, que não é incomum até indagações dentro do grupo: isso é catolicismo?

É bastante interessante notar esses paradoxos e contradições, mas não como significado de erro, mas uma forma diferente de acerto, afinal, se o caminho é tortuoso não seria diferente em indagações do intelecto humano.

Um exemplo mais estranho, por assim dizer, dentro do misticismo (outra coisa mais abrangente no catolicismo) é o conceito da "Noite Escura da Alma" de São João da Cruz. A perda da consolação da fé, a escuridão, o vazio da sensação de Deus. A Noite Escura funciona em duas etapas. A primeira é a dos sentidos — o prazer nas coisas espirituais desaparece. Oração, liturgia, devoção, tudo fica seco e vazio. A segunda é a do espírito. Não é só a sensação que desaparece, é a própria certeza. A alma sente que foi abandonada, que tudo foi ilusão. Mas o paradoxo é que essa escuridão é o caminho, não o desvio. Deus retira as consolações pra que a fé deixe de depender de sensações e se torne pura. Crer sem ver, esperar sem sinais, amar sem sentir-se amado. Se o caminho protestante tende ao reto, a Noite Escura é o oposto radical. A escuridão, a dúvida, o vazio, a sensação de abandono são etapas necessárias, não falhas.

Claro que falamos de decadência espiritual. Da carne, do corpo, não faltam exemplos. Lázaro, o leproso da parábola — o mendigo coberto de chagas. Sofrimento em vida e exaltação na morte. Não é incomum a exaltação desses, com essas doenças, condições e deformidades. Afinal, o sopro divino entra pelas narinas, até mesmo dos moribundos, para um estado de graça.

E os que não são santos? Os que não tiveram a conversão de Agostinho, nem o chamado de Francisco, nem a ferida de Lázaro? Os que vivem no ordinário. Que não conseguem acreditar completamente, mas também não conseguem deixar de procurar. Que carregam a decadência não como queda dramática, mas como um peso constante, silencioso, sem epifania.

É a permissão de não estar pronto. Você pode estar perdido, sujo, sem fé, sem direção, sem nome pra o que sente — e ainda assim estar no caminho. A decadência do homem comum não é a do santo que cai e se levanta espetacularmente. É a do que cai e fica no chão um tempo, sem saber se vai levantar, sem saber se quer. E o catolicismo não exige que ele levante. Exige que ele não finja que não caiu. Não a grandeza da queda, mas a honestidade dela.

A decadência não como oposto da fé, é o caminho em direção a ela. Impureza como matéria-prima. A queda não é um desvio, é uma descida com direção.